Cálculos biliares (ou «pedras na vesícula»)

A sua vesícula biliar é…
A sua vesícula biliar é uma pequena bolsa com a forma duma pêra, com um comprimento que pode variar entre os 8 e os 15 centímetros. Situa-se por baixo do fígado e comunica com o intestino e fígado através de pequenos dutos chamados de canais biliares. Os canais biliares transportam bílis, um líquido verde-acastanhado produzido no fígado. A bílis atua como um detergente, dissolvendo as gorduras que ingerimos em pequenas gotículas. Para além disso, permite ao organismo absorver as vitaminas A, D, E e K. A bílis é concentrada e armazenada na vesícula biliar e só é libertada durante as refeições.
 
Os cálculos biliares são…
Os cálculos biliares são aglomerados de material sólido que se formam na vesícula. Normalmente, assemelham-se a pequenas pedras. Estas podem ser tão pequenas como simples grãos de areia ou assumir dimensões suficientes para ocupar toda a vesícula. A maior parte dos cálculos têm dimensões inferiores a uma ervilha e precisam de alguns anos para se desenvolver. Há 2 tipos de cálculos; os mais comuns são formados a partir de colesterol. Os restantes são chamados cálculos pigmentares e formam-se a partir de cálcio e de fragmentos de glóbulos vermelhos do sangue.
 
Uma em cada 10 pessoas desenvolve…
Aproximadamente 1 em cada 10 pessoas desenvolve cálculos biliares ou outra doença relacionada com a vesícula. Os cálculos podem desenvolver-se em qualquer pessoa, mas os indivíduos de meia idade e as mulheres obesas apresentam um risco acrescido. Ainda não são totalmente conhecidas as razões que levam alguns indivíduos a desenvolver cálculos biliares e outros não.

As pessoas que apresentam maior risco de desenvolver cálculos são:
· Mulheres obesas;
· Mulheres no período pós-parto;
· Pessoas que perderam peso recentemente.

As consequências dos cálculos biliares
Muitas pessoas com cálculos biliares são assintomáticas e desconhecem a sua existência. São diagnosticados apenas em exames realizados por outros motivos. Quando surgem sintomas, estes devem-se à inflamação das paredes da vesícula, ou porque os cálculos se moveram para fora dela, obstruindo o canal que faz comunicar a vesícula com o intestino, dando origem a dor, febre e icterícia.

Quanto mais pequeno o cálculo, mais facilmente atravessa o sistema de canais biliares de modo a causar complicações. As pedras podem ficar alojadas à saída da vesícula e causar episódios recorrentes de dor que se designam por cólicas biliares. Se os episódios são freqüentes, podem causar inflamação e cicatrização da vesícula. A este processo chama-se colecistite crónica.

Se os cálculos saírem da vesícula podem causar outras complicações tais como a icterícia e a colangite (inflamação dos canais biliares), que ocorre quando o fluxo de bílis proveniente do fígado é bloqueado e a bílis se infecta. Os cálculos, que passam dos canais biliares para o intestino, podem também, temporariamente, obstruir a passagem das secreções digestivas com origem no pâncreas, resultando em pancreatite.

Sintomas
Muitas pessoas com cálculos biliares são assintomáticas. Contudo algumas apresentam queixas. Os sintomas mais freqüentes são:
· Dor;
· Icterícia;
· Febre;
· Calafrio.

A dor pode apresentar-se de uma forma pouco intensa, provocando somente um ligeiro desconforto ou indigestão. No entanto, a dor pode manifestar-se de uma forma intensa e persistente, localizando-se no rebordo direito da grelha costal e por vezes irradiando para o dorso e ombro direito. Não raramente, pode ser confundida com a dor do enfarte agudo do miocárdio ou com a úlcera péptica. A dor é devida às fortes contracções da vesícula, na tentativa de expulsar o cálculo. Pode ser iniciada por uma refeição rica em gordura ou manifestar-se à noite. Se sentir uma dor como a que foi aqui descrita deve consultar o seu médico assistente.

A icterícia é um sinal que indicia uma situação mais grave. Ocorre quando os canais biliares estão obstruídos por um cálculo. A bílis ao acumular-se no sangue provoca mal-estar. A icterícia é facilmente perceptível pois, tanto a pele como as escleróticas tornam-se amarelas e, eventualmente, a urina escurece e as fezes tornam-se pálidas. Se detectar sinais de icterícia deve consultar o seu médico assistente pois são várias as causas de icterícia, sendo necessários alguns testes específicos para as poder determinar.

Os tremores, um calafrio súbito com tremor intenso e temperatura elevada, semelhante aos sintomas da gripe, são sinais de que se está a desenvolver uma infecção. Uma vez mais, se isto acontecer deve consultar o seu médico assistente com urgência. Geralmente, esta situação conduz ao internamento hospitalar e à administração de antibióticos por via endovenosa, de modo a controlar a infecção.

Exames
Se houver suspeita de cálculos biliares, o seu médico assistente irá palpar o seu abdómen, de modo a verificar se o seu fígado ou a sua vesícula são dolorosos ou estão aumentados de volume. Poderá ser necessário consultar um especialista num hospital para dar continuidade às investigações. É habitualmente necessário realizar análises ao sangue e uma ecografia.
 
Ecografia
A maioria dos cálculos biliares podem ser claramente visualizados numa ecografia, onde se utilizam ultra-sons para formar uma imagem num ecrã. É idêntico ao exame que se realiza durante a gravidez para o controlo do crescimento do bebé. O exame, que é simples e rápido, não causa qualquer desconforto. Pode-lhe ser pedido para não comer ou beber até seis horas antes do exame. Um tipo especial de gel, que pode causar uma sensação de frio, é aplicada sobre a região a examinar, e uma pequena sonda semelhante a um microfone é colocada sobre a projecção da sua vesícula.
 
CPRE
Por vezes, os médicos realizam um exame a que chamam CPRE, que é a abreviatura de Colangio-Pancreatografia Retrógrada Endoscópica. Este exame fornece uma imagem detalhada do pâncreas e canais biliares, sendo útil quando os cálculos se alojam nos canais, especialmente, quando se desenvolve icterícia. Ser-lhe-á administrada uma injecção de sedativo para que adormeça e um pouco de oxigénio para ajudá-lo a respirar facilmente durante o exame.

No total o teste irá durar entre 15 e 30 minutos e a maioria das pessoas não se recordará de o ter realizado, devido à injecção dos sedativos. O exame consiste na introdução pela boca de um tubo longo, fino e flexível com uma câmara na extremidade. O tubo atravessará o estômago e intestino, sendo depois injetado material de contraste e realizadas radiografias. O contraste é inofensivo e facilmente eliminado pelo organismo.

Existem outros tipos de exames. Um deles, chamado colecistografia oral, envolve a deglutição de cápsulas contendo contraste que é concentrado na vesícula biliar. Quando se realiza uma radiografia, poderá observar-se se existem cálculos e se a vesícula biliar está a funcionar corretamente.
Um teste ligeiramente diferente é a gamagrafia. Consiste na injecção de uma pequena dose de uma substância radioativa (inofensiva) que é detectada por um tipo especial de câmara. A dose de radiação envolvida neste tipo de exame é idêntica à da realização de um radiografia convencional.

A CPRM, abreviatura de Colangio-Pancreatografia por Ressonância Magnética, é um novo tipo de exame que só se encontra disponível num número reduzido de hospitais.

Tratamento
Se os cálculos foram descobertos por um acaso e não provocarem sintomas, o seu médico pode aguardar sem prescrever qualquer tratamento até que os sintomas apareçam. Algumas pessoas cursam sem sintomas ou queixam-se apenas de uma dor ligeira, enquanto outras têm queixas permanentes. Esperar pelo aparecimento dos sintomas é uma prática muito comum e segura. Mas, se os seus sintomas evoluem, causando-lhe mais complicações, o seu médico recomendar-lhe-á uma das seguintes formas de tratamento:

- Remoção da vesícula biliar

A remoção da vesícula biliar é o tratamento mais utilizado para os cálculos que causam sintomas. A vesícula não é um órgão indispensável à vida e grande parte das pessoas não referem quaisquer diferenças após a sua remoção. Na verdade, quando se formam os cálculos, a vesícula deixa de funcionar eficazmente pelo que o organismo está já adaptado a esta perda de função.

Hoje em dia, a vesícula é removida através de um orifício, utilizando uma técnica cirúrgica designada por colecistectomia laparoscópica. A técnica é realizada sob anestesia geral e consiste na realização de quatro pequenos orifícios que vão permitir ao cirurgião a introdução de finos instrumentos e um sonda com uma câmara na extremidade. O médico controla os instrumentos através de um ecrã de televisão. A vesícula biliar é então removida através de um dos orifícios localizado no umbigo. A maioria das pessoas regressa a casa no dia seguinte à operação, embora algumas possam sair no mesmo dia. Habitualmente, os doentes regressam às suas atividades normais em duas semanas.

- Outros tipos de cirurgias

Por vezes, não é possível remover a vesícula através da técnica acima descrita e uma em cada dez pessoas necessitam duma operação mais tradicional, que requer uma estadia mais prolongada no hospital e um período de convalescença de, aproximadamente, seis semanas. Alguns cirurgiões realizam uma operação denominada colecistectomia por minilaparoscopia, em que se utilizam instrumentos especiais, necessitando apenas de uma pequena incisão.

- Remoção por CPRE

Por vezes, os cálculos que se alojam nos canais biliares causando infecção ou icterícia podem ser removidos via CPRE. Isto é feito alargando o orifício de abertura do canal biliar através de um fio metálico aquecido eletricamente (diatermia) que não provocará dor. Os cálculos serão removidos ou passarão para o intestino. Em alguns casos é colocado um curto tubo de plástico, chamado «stent», no canal biliar de forma a auxiliar a drenagem da bílis. O «stent» pode ser temporário ou permanente.

- Outros tratamentos

Existem outros métodos para remoção dos cálculos, tais como a dissolução farmacológica ou a fragmentação através de ondas de choque, mas atualmente são pouco utilizados.
Quando o tratamento é planeado, é necessário ter em conta diversos fatores incluindo a idade e os sintomas. O seu médico terá todo o prazer em explicar-lhe no que consiste exatamente o seu tratamento, assim como responder a quaisquer dúvidas que possam surgir.

Dieta
Não existe uma dieta especial para os doentes com cálculos biliares. A maioria dos indivíduos não necessita sequer de alterar a sua dieta habitual. Anteriormente, pensava-se que estas pessoas deveriam seguir uma dieta baixa em gorduras, mas atualmente considera-se desnecessário este procedimento.

O mais importante é seguir uma dieta tão saudável quanto possível. Se tiver excesso de peso, o emagrecimento pode ser útil. Uma dieta equilibrada, rica em vegetais, frutas e cereais integrais (incluindo pão) e baixa em gorduras é considerada ideal para a maioria dos indivíduos.

Poderá ser útil discutir com o seu médico as questões relacionadas com a dieta ou com a alimentação em geral. Se necessário, deverá consultar um dietista.
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